“O Caso do Cairo”, de Olen Steinhauer

Autor best-seller do New York Times, Olen Steinhauer nasceu nos Estados Unidos da América, em 1970. Aos 33 anos publicou a primeira obra literária – “The Bridge of Sighs”. Entre vários trabalhos, destaca-se “The Tourist”, o primeiro livro da trilogia de espionagem protagonizada pela personagem Milo Weaver, publicado em 2009, e que será adaptado ao cinema pela Sony Pictures Entertainment. Na qualidade de argumentista, Steinhauer criou a série de televisão norte-americana “Berlin Station”. A terceira temporada foi renovada e será transmitida pela Epix, em 2018. Sobre o autor, a Booklist escreveu: “Tornou-se hábito comparar Steinhauer a Le Carré, mas já chegou a altura de passar o testemunho: para a próxima geração, será Steinhauer o modelo de comparação para os outros”.

Não vou tão longe. Steiunhauer é bom, Le Carré é único.

Olen Steinhauer tem um estilo próprio, uma voz singular, isso é certo, e já lhe deve valer um estatuto de referência. Ainda assim, colocá-lo ao lado de Le Carré é (no mínimo) forçado.

Teoria da conspiração versus Fragmentos de um casamento

“O Caso do Cairo” é uma dessas histórias que se estranha (muito), mas também se entranha (acompanhando o desenvolvimento do enredo).

Emmett Kohl é um diplomata norte-americano destacado na embaixada da Hungria. O seu assassinato, em pleno restaurante, deixa Sophie (sua mulher) perplexa. Tanto mais que, segundos antes do homicídio, confessara a Emmett que o traíra. Inconformada e receosa, Sophie procura respostas no Cairo. Stan, agente da CIA no Egipto (e amante de Sophie), promete ajudá-la, mas as mentiras do espião levam-na ao encontro de Omar, um activo dos serviços secretos egípcios.

O casal Kohl guarda um segredo que remonta aos anos 90 (e à Guerra Civil Jugoslava). Ao longo da narrativa, Steinhauer descreve um casamento fragmentado pelo segredo, abordando duas épocas históricas: a (supracitada) Guerra Civil Jugoslava, que nos é apresentada por Zora Balasevic; e a famosa Primavera Árabe (que levou à queda de Ben Ali, Hosni Mubarak, Ali Saleh e Muammar Kadhafi), focando o caso libanês, através de Jibril Aziz.

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Aziz é analista da CIA e pai do Stumbler, um plano estratégico para derrubar Kadhafi, que no passado fora rejeitado pela agência. Aziz acredita que a CIA se prepara para o colocar em prática em 2011, subtraindo a revolta (já em curso) aos rebeldes e posicionando os seus próprios agentes em altos cargos do país.

Informadores, traidores e patriotas dão corpo a uma teoria da conspiração mesclada em fragmentos de um casamento devastado. Em última análise, “O Caso do Cairo” é uma narrativa coesa, que envolve o leitor e o desafia a compreender as emoções dos vários intervenientes. Steinhauer utiliza um registo que denominarei focagem narrativa interior múltipla. Isto é: o leitor acompanha a história de vários ângulos e perspectivas: Sophie, John, Stan e Omar. É uma construção narrativa que retrocede mas não se repete. Cada personagem acompanha o enredo e retira as suas conclusões. Um volume literário aconselhado (particularmente) a: amantes da conspiração; apreciadores de focagens narrativas alternativas; interessados na história/geografia local, com enfâse no Norte de África e na região dos Balcãs.

“O que restava depois do fim? Tudo.”
Olen Steinhauer

Ivo Rocha da Silva 2018 © Todos os direitos reservados

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