“Os melhores contos de Edgar Allan Poe”

Edgar Allan Poe é genial. A conjugação verbal no presente do indicativo foi propositada, e justifica-se com a quantidade de autores e narrativas que sofrem, nos nossos dias, a sombria influência dos escritos de Poe.

Nascido em Janeiro de 1809, em Boston, Poe foi criado por John e Francis Allan, após desaparecimento do pai e morte da mãe. No último artigo escolhi a palavra “errática” para descrever a vida de Camilo Castelo Branco, e o mesmo vocábulo pode-se aplicar à existência de Edgar Allan Poe. Veja-se: a difícil relação com o pai adoptivo, o abandono da Universidade, a expulsão da Academia Militar, os excessos de álcool, o comportamento boémio, as aventuras desregradas, a morte prematura da mulher, a tentativa de suicídio, e uma decisão inédita: viver exclusivamente da produção escrita. Pioneiro em vários géneros literários, também aqui Poe provou a irreverência que lhe consumia o espírito. É o primeiro registo relativo a esta intenção por parte de um escritor norte-americano.

A própria morte de Poe é um mistério: em 1849, após súbito desaparecimento de vários dias, o escritor foi encontrado nas ruas de Baltimore, profundamente alterado e com comportamentos bizarros, sem conseguir articular um discurso que justificasse o sucedido. Morreu dias depois.

As raízes literárias de Poe: um génio assombrado

A influência literária de Poe não pode ser hiperbolizada. Alterando o rumo dos acontecimentos, o escritor marcou definitivamente a história da literatura. Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, escreveu que “cada uma [das estórias de detective de Poe] é uma raiz da qual toda uma literatura se desenvolveu… Onde estavam as estórias de detectives antes de Poe soprar o sopro da vida nelas?”

Mas a genialidade criativa de Poe não se ficou pela ficção policial. A ficção científica também lhe deve a essência. Jules Vernes, autor de “Viagem ao Centro da Terra” (1864) e “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870), foi fortemente influenciado por Poe, escrevendo até a continuação de “A Narrativa de Arthur Gordon Pym” (obra de Poe, 1838). H. G. Wells, autor de “A Máquina do Tempo” (1895), escreveu que “Pym conta o que uma mente muito inteligente poderia imaginar sobre o pólo sul há um século atrás”.

Uma importante alusão à influência de Poe: Fernando Pessoa, um dos maiores vultos da literatura portuguesa, indicava o escritor norte-americano entre as principais referências literárias.

O génio literário de Poe não se detinha perante nada. Os seus escritos no âmbito da Física, da Cosmologia e da Criptografia revelaram-se instigadores de novas obras. E falta-nos ainda falar de terror, suspense e psique. Na literatura de Poe encontramos o horror explorado ao pormenor clínico, com uma dissecação única de elementos e variáveis. Poe é o nome mais aclamado do Romantismo Sombrio, que reflecte a escuridão da alma e o fascínio popular por elementos irracionais, sobrenaturais e grotescos. Escrever sobre Poe é viciante, e já estendi ao máximo o espaço de abordagem ao autor. Falemos, pois, do livro.

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O volume “Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe” reúne 28 narrativas do autor, ilustradas por 28 artistas portugueses. A edição é de Safaa Dib, através da chancela “Saída de Emergência, e integra a colecção Bang!. O espírito singular de Poe é retractado com sucesso na selecção heterogénea de Dib. As ilustrações (de uma forma geral) foram bem-conseguidas. Quanto à obra exposta na colectânea, os críticos já a dissecaram com determinação. Relembrando que o próprio autor foi um crítico literário de referência, atrevo-me a tecer breves comentários sobre o contexto literário de alguns contos. Na génese do terror psicológico estão narrativas como “Berenice”, “A Queda da Casa de Usher” e “O Coração Delator”. Os títulos “Os Crimes na Rue Morgue”, “O Mistério de Marie Rogêt” e “A Carta Furtada” estão na base da ficção policial. Enquanto “O Poço e o Pêndulo”, “William Wilson” e “O Homem da Multidão” são bons exemplos de suspense literário. As habilidades criptográficas de Poe estão presentes no conto “O Escaravelho de Ouro”. As referências apresentadas servem unicamente de exemplo, seguindo a minha apreciação, estando presentes os géneros mencionados em várias narrativas da colectânea.

Em última análise, é uma novidade (edição em Setembro de 2017) de peso no universo literário português, e uma leitura obrigatória para os fãs dos vários géneros literários mencionados. Para os seguidores de Poe, confessando-me entre eles, é um volume essencial, com uma apresentação clássica e robusta que abrilhantará qualquer colecção ou estante de livros.

“Ali nasci. Mas seria uma mera frivolidade dizer que eu não tinha vivido antes, que a alma não tem existência prévia”.
Edgar Allan Poe

Ivo Rocha da Silva 2018 (c) Todos os direitos reservados

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